
Eventos deste tipo se prestam a reações opostas. Para um leitor, interessa como é a roupa, o sapato, no máximo se havia uma modelo deslumbrante ou alguma celebridade na platéia. O que os jornalistas passam para contar estas histórias, interessa pouco. Mais ou menos como nas coberturas de guerra, em que os repórteres só viram notícia se são seqüestrados, feridos ou mortos.
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Parece exagero comparar uma semana de moda com uma guerra? Talvez, mas o processo é parecido: o que interessa é ter acesso ao que acontece. E nunca como se conseguiu este acesso.
A dupla Fernanda de Goeye e Paula Raia hesitou e adiou o quanto pôde a decisão de desfilar nesta temporada. Uma delas acaba de ter um bebê, fatos familiares pesavam na decisão. Na última hora, cederam aos argumentos da equipe de produção da SPFW. Mandaram convites lindos, escritos por calígrafos, com letras moderninhas. Apenas 50 jornalistas receberam o cartãozinho mimoso, nominal, um privilégio. Praticamente nenhum fotógrafo foi convidado.
Ok, o que isto afeta no julgamento da coleção? Nada. Mesmo com o constrangimento de ver os companheiros aborrecidos com a exclusão, é preciso dizer que foi bom, um desfile numa sala mínima (as 50 foram todas), sem iluminação, as modelos lindas, de cabelos crespos, obra de Max Weber, sapatos absurdamente altos da Schutz. E a coleção tem o que se espera da Raia.
O primeiro look logo denunciou a identidade: um longo coral com aberturas laterais, meio frouxo no corpo da Carol Pantoliano, aquele jeito sensual de sempre. O matelassê está mais para o capitonê, com aplicações metálicas.
As calças são tão elaboradas que deve faltar algo na descrição: bolsos para fora, recortes, tecidos aplicados em retângulos nas pernas. Não faltam bolsos e curvas nas barras de saias, os pescoços são cobertos por rolos feitos com casacos, a pelerine bege é montada em barras arredondadas. Será que era pelerine ou havia mangas submersas naquele mar de volumes?
Como define Felipe Veloso, stylist da marca, "elas combinam poltrona Chesterfield com esquimós, alhos com bugalhos". No final, é um estilo rico, elaborado, limitado no uso porque haja corpo e a atitude para aderir. É uma identidade cultivada com requinte pela Raia e pela Goeye.
Iesa está na área da moda desde o final dos anos 60, quando começou no Jornal do Brasil como ilustradora. Passou à produção e redação nos anos 70. Trabalhou na revista Desfile, na sucursal das femininas da Editora Abril em 80, mas voltou ao JB como editora da revista Domingo.
Há 12 anos abriu o site www.estiloiesa.com.br e em 2001 criou o curso de Jornalismo de Moda no Senac Rio, que já está na sétima turma.