SPFW

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28 de janeiro de 2011 • 13h24 • atualizado às 13h45

"Tricô é trabalho", diz Lucas Nascimento

"Não estou nervoso com a estreia na SPFW", afirma Nascimento
Foto: Divulgação
 
Rosângela Espinossi

Matemática, tentativas e erros, testes e mais testes em um verdadeiro laboratório de experiências com fios, materiais e texturas. É esse o trabalho de um designer de tricô, como Lucas Nascimento, um dos raros profissionais do mundo que tem um grau de excelência que ultrapassa a velha imagem que todo mundo possui do tradicional trabalho de tricotar, muitas vezes associados às vovós.

Lucas, que aprendeu as tramas manuais bem pequeno, em Bonito, Mato Grosso do Sul, mas se especializou no tricô industrial em Londres, está prestes a estrear na São Paulo Fashion Week, assinando a linha da marca Ghetz, que existe há 15 na cidade paulista de Socorro. Não que o moço de 30 anos seja novato nas passarelas. Já desfilou por três vezes no Fashion Rio, se superando a cada apresentação. Na última, no começo do mês, misturou neoprene com tricô, mostrando formas estruturadas e elegantíssimas. Foi considerado, com razão, um dos melhores desfiles da temporada.

Na correria entre prova de roupa e ajustes finais para o desfile deste sábado, às 15h30, na Bienal do Ibirapuera, em que apresentará entre 25 e 28 looks, ele concedeu entrevista exclusiva ao Terra, sobre os desafios de se criar duas coleções diferentes ao mesmo tempo; sobre a ideia errônea que muita gente tem de associar o tricô a peças pesadas e apenas para temperaturas muito quentes; e revelou um pouco do que vai mostrar. E confessa: "Não faço tricô para relaxar assistindo a TV. Tricô para mim é trabalho. Relaxo viajando, tomando um vinho, saindo com os amigos".

Confira trechos da entrevista:

A coleção
"Estamos montando os looks agora. Serão de 25 a 28, com peças que vão de calças compridas a vestidos, passando por saias, jaquetas e casacos. As cores são azul-royal, preto, cinza, bege, vinho, amarelo e vermelho. Tudo para uma mulher informada, elegante, sexy e que sabe o que quer vestir. Estamos usando apenas fios nacionais, sintéticos e naturais, como viscose, algodão, poliamida, com toque leve ou aspecto emborrachado. Nas estampas, temos a colaboração do escultor Bruce Ingram, que faz um bonito trabalho de texturas".

A união
"Há cinco meses, os proprietários da Ghetz, Cassio Buono Novo e Luana Ribeiro Novo, me convidaram para participar da nova fase da empresa, de reposicionamento da marca, junto ao diretor de arte Giovanni Bianco. O que mais me impressionou foi a estrutura de maquinário disponível na fábrica, para o desenvolvimento das peças e testes de fios. Fiz a pesquisa da coleção em Londres, onde tenho escritório, com a pesquisa para minha coleção. E todo o foco é voltado para o acabamento impecável, modelagem bem feita. Foi corrido, mas o resultado é o que procurávamos".

A criação
"O tricô se diferencia da criação de outras coleções porque tudo começa a partir do fio e não do tecido já pronto. A peça sai da máquina praticamente pronta. Para isso, o trabalho de pesquisa com os fios e a textura das peças, por exemplo, precisam ser testados várias e várias vezes. Aí entram também os cálculos matemáticos para os pontos, a mistura de materiais para ver se dar certo, se o caimento está bom... É um verdadeiro laboratório de experiências. Fazemos e refazemos as peças mil vezes, se preciso for".

Tricô num país tropical
"É preciso mudar a consciência das pessoas de que tricô é só com lã grossa e acabamento artesanal. Hoje, as possibilidades são enormes. Há os fios com toque leve e frio, as tramas próprias para os dias quentes. Mas a mentalidade de moda no Brasil está crescendo e o pessoal já sabe que tricô não são só as peças pesadas e com cara de vovô".

Artesanal
"Não tenho nada contra o tricô com cara artesanal, mas minha linha de criação é mesmo o industrial, a pesquisa de materiais e texturas. Por isso, não uso crochê e macramê, que ficam com esse estilo. Isso não significa que, em alguma coleção, eu queira dar exatamente essa cara de vovó ou de hippie à coleção. Não é, porém, o que estou buscando agora".

Tricô para relaxar
"Já fiz muita coisa à mão, mas agora, se preciso, tenho uma equipe que produz. Tricô é trabalho, então não consigo ficar na frente da TV tricotando. Para mim, relaxar é viajar, tomar um bom vinho sair com os amigos".

Expectativa
"Não estou nervoso porque vou estrear na SPFW. No Rio, já apresentei três coleções e correu tudo bem. A única coisa a que fico atento são aos detalhes, ao acabamento, se está tudo certo. Tudo tem de estar feito de forma superprofissional. E tem dado certo".

Especial para Terra