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Fotógrafo italiano fala sobre os bastidores do mundo fashion

24 set 2012
16h52
atualizado às 16h55
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O que é apresentado em uma semana da moda, seja em Milão ou em qualquer outra cidade, viaja o mundo inteiro, graças, principalmente, ao trabalho dos fotógrafos que são fundamentais para o evento. As grifes escolhem para entrar nos desfiles os profissionais de maior prestígio, isto é, que trabalham para grandes grupos de imprensa, esperando que essas fotos cheguem o mais longe possível, em revistas, jornais e sites. E na era digital, poucos minutos depois do fim de um desfile, as fotos já estão nas agências de notícias.

Michelangelo Princiotta é um fotógrafo italiano com mais de 20 anos de carreira
Michelangelo Princiotta é um fotógrafo italiano com mais de 20 anos de carreira
Foto: Danielle Sousa / Especial para Terra

O trabalho do fotógrafo de moda não é fácil. Somente acompanhando a rotina desses profissionais é que se consegue entender o quanto é difícil reunir qualidade e velocidade. É preciso experiência para sair de um desfile para outro carregando equipamento pesadíssimo e, ainda por cima, garantir um bom lugar de frente para a passarela.

Durante três dias da semana da moda de Milão, o Terra acompanhou de perto o trabalho de Michelangelo Princiotta, um fotógrafo italiano com mais de 20 anos de carreira e que, atualmente, junto com outros jornalistas, fundou uma cooperativa chamada FreeMedia, que atende clientes da Itália e de outros países.

Michelangelo sempre optou pelo trabalho freelance e colaborou com revistas da Austrália, Alemanha, Argentina e fotografou personagens importantes do mundo da moda, da política, do esporte, entre outros. Quando viajou para o Brasil pela primeira vez, nos anos 1980, o seu objetivo era fazer uma entrevista com Roberto Marinho, que acabou não acontecendo. Porém, Michelangelo voltou para casa com uma namorada brasileira, com quem completará 25 anos de casado no próximo ano.

Há tantos anos cobrindo os desfiles de Milão, Michelangelo é conhecido por praticamente todas as pessoas envolvidas na produção do evento. Nesse vai e vem de um desfile para o outro, o Terra conseguiu saber um pouco mais do trabalho do fotógrafo de moda e da experiência de Michelangelo ao longo dos anos.

Terra: Na sua opinião, quais são as mudanças mais importantes e relevantes na fotografia não só na moda, mas de um modo geral, nos últimos tempos?
Michelangelo Princiotta: A diferença mais importante foi vista com o desenvolvimento da tecnologia, devido à digitalização da fotografia. Na era analógica, éramos limitados, seja no uso do filme, que nos impedia de fazer fotos de boa qualidade em condição de uma iluminação insuficiente, ou na quantidade e variedade de filmes para usar. Precisávamos ter pelo menos um assistente para recarregar as máquinas e de um equipamento muito maior e mais pesado e, como acessório principal, um flash muito potente e de ótima qualidade. Com a câmera digital é possível fazer muito mais fotos (milhares em cada desfile), pegando mais situações, como a modelo de corpo inteiro, detalhes, sapatos, bolsas, acessórios, etc. Naturalmente, o trabalho de edição e o pós-produção aumentou notavelmente, porém, o digital nos permite uma maior flexibilidade, praticamente em tempo real, para mandar para redação e para os gráficos imediatamente as imagens selecionadas.

T: Você já esteve em todas as 4 principais semanas da moda: Nova York, Londres, Milão e Paris. Em sua opinião, qual a diferença entre elas?
MP: Nova York, Londres, Milão e Paris ainda hoje são as cidades credenciadas a ditar lei na moda global. As diferenças estão nos detalhes, embora sirvam para identificar cada uma delas. Nova York é a prática e moderna, Londres ainda hoje é aquela com as novidades mais excêntricas, e Milão, em nível de distribuição e riqueza das marcas, continua sendo a vanguarda, enquanto Paris tem ainda o fascínio da tradição mesmo com a renovação.

T: Você participa sempre de dezenas de desfiles há anos. Apesar da crise na Itália, se fala muito que o setor da moda está superando as expectativas. Você concorda, comparando ontem e hoje?
MP: Na verdade, o setor da moda também está sentindo, drasticamente, a crise econômica. Muitos estilistas têm modificado a participação, reduzindo os custos e eliminando despesas de gadget e buffet, que antes eram quase obrigatórias. Atualmente diminuíram as “saídas”, em geral, se falamos em exceção para as grifes mais importantes, como Armani ou Dolce&Gabbana, que continuam com apresentações que não deixam nada a desejar em relação àquelas dos anos de 1980 e 1990. Na minha opinião, grandes anos para os desfiles e as top models. Também para nós, fotógrafos de desfiles. Creio que se existe uma vantagem desse momento, só será possível ver no estímulo da criatividade e na procura de novas soluções.

T: Falando de fotografia, com a era digital, quais são os pontos positivos e negativos para o seu trabalho?
MP: A possibilidade de distribuir as fotos em tempo real, a grande qualidade que se consegue ter também em condições extremas e a flexibilidade seriam os pontos positivos. Já a parte negativa da era digital é que muitos pensam que porque possuem uma câmera digital são fotógrafos e, com a crise, a qualidade da edição muitas vezes vem transcurada.

T: Durante um desfile são dezenas de fotógrafos com as câmeras viradas para o mesmo lugar: a passarela. É possível se diferenciar?
MP: Tantos anos de experiência fazem a diferença. O momento do clique, o controle da luz, a escolha do tempo para trabalhar, esses são só alguns dos aspectos que diferenciam o trabalho de cada fotógrafo.

T: Para um fotógrafo, qual é o cenário ideal de um desfile para trabalhar?
MP: Cada desfile tem o próprio fascínio. O fotógrafo profissional é obrigado a ter sensibilidade suficiente para ressaltar o que de melhor está desfilando na passarela.

T: Um fotógrafo, em uma semana de moda, pode fazer diversas coisas: backstage, a passarela, os detalhes do que é mostrado, etc. O que você prefere e por quê?
MP: Também nesse caso, como em outras situações, muito do nosso trabalho depende do pedido que temos do nosso cliente. Cada vez mais é um trabalho global. Eu tenho a vantagem porque no meu percurso profissional pude desenvolver experiências muito diferentes uma das outras, porém, que me levam à capacidade de sintetizar de maneira rápida e eficiente as situações, para melhor otimizar o que me serve para a comunicação do meu trabalho.

T: Na sua opinião, qual o tipo de foto de um desfile é inaceitável?
MP:
Se tem um editor que publica as fotos, nada é inaceitável.

T: Trabalhando como fotógrafo, correndo entre um desfile e outro, dá para ter uma ideia dos desfiles e ter uma grife preferida? Qual seria ela?
MP: Todas são boas, com algumas é mais gostoso e satisfatório de trabalhar por vários motivos. Por exemplo, com Armani é um espetáculo emocionante que me deixa sensações particularmente belas. O prazer da passagem de uma beleza sem tempo, expressão dos movimentos, as várias entradas das modelos, com a certeza, um trabalho refinado. Rei Giorgio é tão particular e perfeito que mais de uma vez o vi aproximar-se do local onde ficam os fotógrafos para avisar da mudança de luz que seria feita durante o desfile, nos permitindo, graças à essa informação, fazer melhor o nosso trabalho.

T: Qual conselho você daria para quem quer trabalhar com fotografia de moda?
MP: Conhecer bem o próprio equipamento, conhecer os bastidores e o mundo da moda em geral, conhecer bem as pessoas para qual trabalha ou que trabalham junto e, acima de tudo, respeito com as outras pessoas envolvidas na produção do trabalho.

Fonte: Especial para Terra

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