Moda

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26 de novembro de 2010 • 08h40

Estilista brasileira ensina em livro a fazer 15 peças com um pedaço de tecido

Capa do livro "Um Pedaço de Tecido" que a estilista Lena Santana divulga no País
Foto: Divulgação
 
Michelle Achkar

A ideia de sustentabilidade, reciclagem e reaproveitamento de materiais ganha cada vez mais espaço no mundo da moda. É nessa onda que a estilista baiana Lena Santana, 41, está no Brasil para lançar a versão em português do livro Um Pedaço de Tecido, tradução de A Piece of Fabric, lançado no começo do ano na Inglaterra e em outros países. Lena usa apenas materiais sustentáveis, como algodão orgânico, ou tecidos antigos, mesmo que centenários, em suas criações.

À venda no País desde outubro, a estilista promove a publicação no Rio de Janeiro, na loja da também estilista Luiza Marcier chamada À Colecionadora - um dos pontos de venda de suas roupas no Brasil; em Belo Horizonte e também em São Paulo, onde ministra um curso de moulage na Escola São Paulo, no dia 8 de dezembro.

O livro ensina a fazer 15 peças de roupas e acessórios de maneira simples, a partir de um corte de tecido como sugere o título, e a tarefa é compatível até mesmo com as habilidades de quem não estudou costura ou moda. Lena desenvolveu o projeto a pedido da editora Paperback, que lançou o título na Inglaterra, e faz parte de uma série de oito livros com foco no reaproveitamento e contra o desperdício de materiais. Entre eles estão One Ball of Wool (Um novelo de lã), One Piece of Paper (Um pedaço de papel), One Block of Wood (Um bloco de madeira). Apenas este último e o de Lena já foram publicados.

De origem humilde, Lena nasceu em Salvador e aprendeu a costurar com a mãe, que fazia as roupas dos filhos por necessidades econômicas. Aos 19 anos, foi tentar a vida no Rio de Janeiro e trabalhou em vários lugares até ser convidada por um amigo para se mudar para Londres. Lena viajou para a capital inglesa em 2003 e estudou na Surrey Institute of Art and Design.

De volta ao Brasil, ela abriu um misto de loja e centro cultural com outros estilistas, como a própria Luiza Marcier, O Estúdio, entre outros. Após um ano, em 2005, decidiu voltar para a Inglaterra e há dois anos integra um projeto de apoio a novos talentos, chamado de Cockpit Arts. A ONG cede ateliês e apoia o desenvolvimento das marcas que, em cinco anos, precisam estar consolidadas no mercado.

Nesse desafio Lena está garantida, pois já mantém pontos de venda no Brasil, Londres, Budapeste (Hungria), Paris (França) e recentemente fechou o primeiro contrato com representante no Japão, que comprou logo de cara 150 peças de sua última coleção, batizada de Flowering. Confira entrevista que a estilista concedeu ao Terra por telefone:

Terra - Você criou os modelos de roupas do livro especialmente para o projeto?
Lena Santana - Sim. Quando a editora se aproximou de mim dizendo que gostava do meu trabalho, comecei a pensar em coisas parecidas com o que fazia, mas mais simplificadas. Criei uma guarda-roupa de 15 peças para uma mulher moderna. São peças como vestidos, saias, blusas, biquínis, bolsas, que podem ser reproduzidos de várias cores e formas a partir de um mesmo molde. E as roupas ficam mesmo com a cara que têm no livro.

Leitores de todo o mundo, mesmo os sem experiência com costura, elogiam o livro dizendo que ficaram surpresos quando conseguiram reproduzir de maneira fácil as roupas. Qual o segredo?
Aprendi a fazer roupas de maneira simples e também dou aula, inclusive para pessoas que nunca fizeram nada em moda. Então ensino como aprendi a fazer. Desenvolvi uma técnica própria devido à dislexia. Geralmente, as pessoas pensam num molde e eu faço o contrário, construo no manequim e depois faço o molde. A técnica consiste em dobrar, cortar e pronto. Com ela dá para fazer bainha de calça, apertar blusas, mudar o acabamento de uma roupa, como tirar as mangas. É baseada no moulage, de construção da roupa no manequim.

O que tem a ver a dislexia?
Descobri que era disléxica quando fui fazer faculdade em Londres. Não entendia moldes planos e todas as contas. Passei a usar "draping" (moulage, em inglês), técnica usada pelas melhores marcas francesas do mundo. Hoje dou aula na mesma faculdade onde me formei, uma das melhores de Londres, e tenho muitos alunos disléxicos. Muitos artistas são assim, pois têm pensamento abstrato e não seguem conceitos acadêmicos.

Sustentabilidade é hoje tema em alta também no mundo da moda. Acha que é um caminho viável para o segmento?
Na Europa se fala muito nisso. Grandes marcas comerciais, como a Vivienne Westwood, têm linhas feitas apenas com materiais reciclados. Não quer dizer que são coisas velhas reaproveitadas, mas roupas feitas com tecidos antigos, que nunca foram usados. No Brasil, há muita matéria-prima de qualidade, orgânica, reciclada a partir de materiais como PET, e se transformou em algo viável, mas que ainda são muito caras para serem exportadas. Mas hoje até a China se rendeu a isso e há empresas que produzem apenas tecidos feitos com materiais sustentáveis.

De onde vêm os tecidos que usa nas suas roupas?
Faço uma grande pesquisa de mercado para consegui-los e geralmente saio de Londres para buscar materiais. As pessoas me ligam dizendo que têm tal tecido, me mandam imagens e, se gosto, reservo e vou buscar.

Serviço
Um pedaço de Tecido
Tradução: Rodrigo Sardenberg Editora: Cobogó
Encadernação: Brochura
Formato: 240 x 193mm / 96 págs
Preço: R$ 46

Eventos:
25 de novembro - lançamento na Galeria À Colecionadora, de Luiza Marcier, em Ipanema, Rio de Janeiro, das 19h às 22h
4 de dezembro - lançamento na Livraria Quixote, em Belo Horizonte, às 11h
Em SP, haverá dois eventos:
7 de dezembro - lançamento do livro na Escola São Paulo, em São Paulo, capital, com sessão de autógrafos
8 de dezembro - curso sobre corte e costura e o processo de Moulage em sua criação na Escola de São Paulo

Especial para Terra